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| Arte de Andre Santana MS |
Meu velho nunca foi homem de meias conversas. Monossilábico, taciturno, recolhido em si mesmo não como lebréu renegado, mas como o cão de uma garruncha 320. Velho de cerne! Vi coisas nessas andanças lado a lado com o homem, em lombo de cavalo nas estradas da Barra Mansa, da Palestina e outros rincôes de mundo e mato. Um homem nesses tempos era uma quimera, incompleto sem sua arma, seu cão e seu cavalo. Meu pai era um centauro. Capricho era o nome de sua montaria. Sereno era o daquela que me servia, porque era branco e sarapintado, como que "serenado de negro".
Prestava atenção nele, para imitar seus gestos em cada mínima coisa. Queria ponderar como ele, sentenciar como ele, ver ordem no caos do mundo e fazê-la emergir mesmo que à força de suor, ferro ou fogo. Era um governo o meu velho! Ontem estávamos eu e ele papeando, lamentando as injúrias do tempo e do mundo, e eu me perguntando onde estaria o chapéu preto, a calça lisa, o paletó de tecido grosso, as botas de montar... Não fiz rodeio, fui disparando em cheio a pergunta, e meu velho, com os olhos verdes duros como duas turmalinas, embebidas num mareio de lágrimas, assim ponteou:
"Ué, filho? Eu que te pergunto!
Meu tempo de cavalgar acabou, menino... É sua vez agora. Não faço idéia de como palmilhar esse mundo sem campo, sem terra, sem boiada, sem arado, sem solo, sem sonho, sem honra, sem palavra, sem Deus e sem limite. Mas esse não é meu tempo, é o seu. E é a tua força, a tua palavra e a tua vontade que vão bracejar com este tempo. Conselho nunca serviu para nada, se servisse eu te vendia ao invés de te dar, mas quer saber de uma coisa? Meu conselho é que se avie, vá ser peão alongado nesse sertão afora, porque o mundo, filho, não espera ninguém!"
Rapaz, parece que tenho areia nos olhos...
Meu velho peão, cansado, chama pro truco e cola o zap na minha testa: que lição! Chapéu é uma sombra para parar a inclemência da chuva e do sol... Nas mãos do velho tinha vida, contava de sua alegria, de seu pesar, do respeito que ele impunha e dos respeitos que ele prestava. Mas chapéu, assim como destino, é para a cabeça de um homem só. Cada um tem o seu.
"Não me pergunte do meu velho chapéu, menino - completou o velho, me apertando a mão com aqueles dedos calejados num aperto de aço, como convém ao afeto dos homens de brio- Vá até Aparecida do norte ou Pirapora do Bon Jesus, Procure uma Casa da Cinta e encontre um chapéu que te sirva."
Prestava atenção nele, para imitar seus gestos em cada mínima coisa. Queria ponderar como ele, sentenciar como ele, ver ordem no caos do mundo e fazê-la emergir mesmo que à força de suor, ferro ou fogo. Era um governo o meu velho! Ontem estávamos eu e ele papeando, lamentando as injúrias do tempo e do mundo, e eu me perguntando onde estaria o chapéu preto, a calça lisa, o paletó de tecido grosso, as botas de montar... Não fiz rodeio, fui disparando em cheio a pergunta, e meu velho, com os olhos verdes duros como duas turmalinas, embebidas num mareio de lágrimas, assim ponteou:
"Ué, filho? Eu que te pergunto!
Meu tempo de cavalgar acabou, menino... É sua vez agora. Não faço idéia de como palmilhar esse mundo sem campo, sem terra, sem boiada, sem arado, sem solo, sem sonho, sem honra, sem palavra, sem Deus e sem limite. Mas esse não é meu tempo, é o seu. E é a tua força, a tua palavra e a tua vontade que vão bracejar com este tempo. Conselho nunca serviu para nada, se servisse eu te vendia ao invés de te dar, mas quer saber de uma coisa? Meu conselho é que se avie, vá ser peão alongado nesse sertão afora, porque o mundo, filho, não espera ninguém!"
Rapaz, parece que tenho areia nos olhos...
Meu velho peão, cansado, chama pro truco e cola o zap na minha testa: que lição! Chapéu é uma sombra para parar a inclemência da chuva e do sol... Nas mãos do velho tinha vida, contava de sua alegria, de seu pesar, do respeito que ele impunha e dos respeitos que ele prestava. Mas chapéu, assim como destino, é para a cabeça de um homem só. Cada um tem o seu.
"Não me pergunte do meu velho chapéu, menino - completou o velho, me apertando a mão com aqueles dedos calejados num aperto de aço, como convém ao afeto dos homens de brio- Vá até Aparecida do norte ou Pirapora do Bon Jesus, Procure uma Casa da Cinta e encontre um chapéu que te sirva."
Claudinei Soares

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