Claudinei Soares

E esta vontade de te alcançar

09:28

E esta vontade de te alcançar
Mas altas horas da noite
Sem nem saber
Onde mora você
Como faço para chegar
-Mas o que importa?

Quando é sincero
na alma o anelo
Que ousa murmurar
Que eu te quero


E este estranho ser
Que busca estar
Invadindo minhas angústias
Que domestiquei
Tomando o lugar
Do vazio que amealhei
Bate à minha aorta

E sei que é sincero
Na alma o anelo
Tão belo à cantar
Que eu te quero

Estou lutando para não me entregar
Piso com os dois pés no freio
Mas sei que aconteceu
Sei que amanheceu
E já não é mais meu
Um pedaço do peito

Eu sei que te quero
Na alma o anelo
Sussurra até mais
Que te venero

Aurora invencível
Que temo e espero
Se anuncia - eu sei
Que é sincero.

Claudinei Soares

Claudinei Soares

Volver

10:54

Volver é impossível - não consigo
Quimera te persigo - para jamais
E a lua com presságios de castigo
Ilumina um postigo que ficou para trás

Me iludo e insano habito
A minha trama
Galho se perde em rama
Rama em flor
Aranha sobre o abismo
Tece a cama
Deita na teia frágil sem temor

Estrelas solerosas que desfilam
E a solidão partilham
Com quem quiser
A mágoa licorosa que destilam
Minh'alma beberica
Tanto quanto quer

Volver é impraticável
Não há meios
E calam-se os receios quando vem
Mas vi teus olhos verdes
E meus anseios
Encarnados na face
De outro alguém.

Agora o tempo impera - e tudo pode
Mão lenta e vã que erode os colossais
Abismos e planuras - tudo implode
A alma, a carne, as obras - dos meros mortais.

O que de nós no mundo premanece
A noite esmaece
Findará
Maldita a mente, a boca
Que não esquece
Do que partiu e nunca volverá!


Claudinei Soares

Claudinei Soares

Não saberia dizer

09:51

Não saberia dizer
De um jeito que fosse expressar
Completamente o que senti
Mas acho que quase morri
Senti meu ser se diluir
Na dor insana e vi partir
As fibras de mim mesmo
Como cordas que de tensas
Se rompessem num acorde de última agonia

Não poderia perceber
Mesmo que quisesse notar
Para mim mil anos se passaram
Nesses segundos que acabaram
De ficar em um suspiro para trás

Como posso ainda viver
Tendo sentido uma coisa assim?
Boa pergunta- e triste é constatar
Que se morrer, a causa ainda é

Como posso não chorar?
Cauterizei - enlouqueci, talvez?
Ou talvez cale meus anseios insondáveis
Na imensidão da minha estupidez

Não poderia esquecer
Sem junto olvidar tudo
Mesmo os movimentos peristálticos
As rugas que marcam minha face
A barba que teima no rosto
E lembra sempre a maciez do teu

E a dor me consumindo
Enquando a vida te ilumina mais
E mais seu ser avança em luz
Sendo pra mim o fim do show
E eu sinto-me escorrer em portas
Mortas que são novas vidas
Entradas que são só saídas
Olás para te dizer adeus

E não! Deixe a dor lacerar
Estraçalhar, ferir o que quiser
Que estique a alma até o limite
Que nada mais tenha um porquê
Não, que eu nunca veja a paz
Que a dor não passe -que aumente se puder
A guardarei sim - acredite
Porque ela é o que me resta de você.


Claudinei Soares

Francisco Heraldo

Quanto silêncio

14:26

Quanto silêncio
Habita meu coração
Não digo nada
É meu segredo
Não há mais sonhos
Não há mais nada
Somente medo

Quantos poemas ao pé do ouvido
Oh meus amigos
Eu tenho tanto a lhes dizer
que até duvido
que haja tempo
Para algum prazer

Qualquer alento
Qualquer consolo
Visita o pensamento
Solto no ar
Mas o silêncio
Logo adentra meu coração
Pássaro ferido
Já não pode mais voar.

Quanto silêncio
Habita o coração
Deserto imenso
Em pleno verão
Conserva o medo.

Oh meus amigos
Eu tenho tanto a lhes dizer
Pena que hoje em dia
O silêncio seja de ouro.

Francisco Heraldo 

14/ 07/ 2017