Claudinei Soares

Cortinado - a noite

08:53

Cortinado - a noite
De tinta e papel
Nos trilhos se movem
Os astros do céu
A lua emerge
Prateia o chão
E as cordas que toco
E a própria canção

Milênios passados
Relógios de luz
Versos desbotados
Que o vento arrastou
A cinza das eras
Jamais se apagou
De mim o que resta?
De tudo- o que sou?

Meu amor não dorme
Vigia - eu sei
Meu sono cansado
Cerrado ao final
Ao fim da batalha
Vivas não dei
Meu amor não dorme
Me guarda do mal

A noite avança
Que dia, meu Deus
E já sem tardança
Amanhecerá
Minhalma dormita
E os sonhos meus
Passeiam na terra
Que um dia será

A longa jornada
De um astro que errou
Através da estrada
Fulgente apogeu
O aço da espada
Retornando ao chão
Meu amor não dorme
Por quê durmo eu?


Claudinei Soares

Claudinei Soares

Tropecei num tipo estranho de amor

10:48

Tropecei num tipo estranho de amor
Quando vi estes olhos cansados
de um verde de olhos de gato
De um verde de folha ao sol

E senti meu coração espremido
No lagar e produzindo vinho novo
Espesso, forte e misterioso
Como um elixir alquímico

Tropecei num tipo estranho de amor
e queria que você soubesse
O quanto é lindo.

É um negócio que parece brincadeira
disposto a cultivar teu riso
Atento à sua menor tristeza

E encantado sempre com tudo
Porque a vida se reveste de sentidos
Que antes estavam menos acessíveis
Que a mais longínqua das altas estrelas.

Sonho que você deitará no meu colo
E dormitará um merecido sono
Almejo deitar tranquilo em seu regaço
E deixar correr estas contidas lágrimas

Quero te ver alcançar as montanhas
Quero saber que cruzou oceanos
Tropecei num tipo estranho de amor
E quero ser quem te espera chegar.


Claudinei Soares

Claudinei Soares

Você tem sangue?

11:21

Você tem sangue?
Tem?
Ah, sim...
Todo o mundo diz que tem.
Mas se tem um certo sangue
Vai saber o que eu digo
Vai saber antes que eu diga
Já terá sentido o cheiro
Cheiro de porão
Cheiro de maldade
Cheiro de prisão
A pele
Pressentindo a chibata
Os pulsos
Pressentindo as correntes
A escravidão
Ali
No canto da sala
Atrás da igreja
No livro recém lançado

A maldita
É sorrateira
Toma a forma das leis
Ganha as chancelas episcopais
É notícia no jornal
Piada
Nos botecos
E ninguém faz nada
Porque se julga
Um homem livre
Até que chega
A lei
E racha o mundo

Se você sabe
Se você sente
Então já entende
Que vai se lascar.

Ela vem aí
Vem sim

A escravidão
Nunca está longe
Dança mascarada
Em todo o baile

E ninguém faz nada

Até o baile acabar para alguns
Até alguns virarem senhores
Até assinarem as leis

Ninguém faz nada.


Claudinei Soares

Claudinei Soares

E esta vontade de te alcançar

09:28

E esta vontade de te alcançar
Mas altas horas da noite
Sem nem saber
Onde mora você
Como faço para chegar
-Mas o que importa?

Quando é sincero
na alma o anelo
Que ousa murmurar
Que eu te quero


E este estranho ser
Que busca estar
Invadindo minhas angústias
Que domestiquei
Tomando o lugar
Do vazio que amealhei
Bate à minha aorta

E sei que é sincero
Na alma o anelo
Tão belo à cantar
Que eu te quero

Estou lutando para não me entregar
Piso com os dois pés no freio
Mas sei que aconteceu
Sei que amanheceu
E já não é mais meu
Um pedaço do peito

Eu sei que te quero
Na alma o anelo
Sussurra até mais
Que te venero

Aurora invencível
Que temo e espero
Se anuncia - eu sei
Que é sincero.

Claudinei Soares