Claudinei Soares

A lista

11:40

A lista ainda está aqui
Com as coisas que você precisa
Meus dedos guardam estradas e ruas
Caminhos por onde sua mão desliza
Quando entrei por essa porta
E você não estava
Uma trava em meus olhos se rompeu
E a janela onde a luz penetrava
Escutou cada soluço meu.

As palavras ainda estão aqui
E quando você passa
De um lado para outro na cozinha
E baixa os olhos para algo e se concentra
Não sei se a luz escapa da janela
Se a noite adentra
Sei apenas desta vontade
Que arde na minha pele e que termina
Por me fazer te abraçar

Seus dados ainda estão aqui
As coisas nos cantos
O peixe no aquário
Sua voz dentro de mim guardada
Num pequeno relicário
Eu me pergunto
Como fazer
Para que você não esqueça
Mas a vida vai avançando
Como chama em papel velho
Que deixa fumo
Carvão vazio sem a esperança da brasa.
Quando entrei por essa porta
E você não estava
Eu quis te trazer para casa.


Quando entrei na tua rua
E não achava onde estacionar
Quando não achava teu endereço
Nem o caminho para a sua boca
Nem as palavras que agora jazem aqui
Quando sentei na tua mesa
E afaguei teu rosto pela vez primeira
Quando teu nome virou
Uma estrela cadente na minha garganta
Quando
Vi um poema misterioso nos teus olhos

Quando
Entrei por essa porta
E você não estava
Uma palavra
Escapou voando de mim
Mas a vida segue
apagando as pegadas
Calando os poemas
Aplanando as escarpas
Sendo brisa que acaricia
Ou furacão que devasta.
Quando entrei por esta porta
E você não estava
Descobri que teu abraço
Era a minha casa
E isto me basta.


Claudinei Soares

Francisco Heraldo

Trago em seus olhos

11:30

Trago em seus olhos
As lembranças do que já fui

Afago o silêncio

A morte me invade a vida
Crava em minha pele suas garras

Nó na garganta

Já não é vontade de chorar
Que gira a engrenagem

Novos medos
Novos dias

Já não somos os mesmos
Antes mesmo de nosso nascimento

Sábias palavras
Percorrem ao vento

Martela em meu peito

seu olhar
Cheio de mim.

Francisco Heraldo 

30/05/2017

Claudinei Soares

Cortinado - a noite

08:53

Cortinado - a noite
De tinta e papel
Nos trilhos se movem
Os astros do céu
A lua emerge
Prateia o chão
E as cordas que toco
E a própria canção

Milênios passados
Relógios de luz
Versos desbotados
Que o vento arrastou
A cinza das eras
Jamais se apagou
De mim o que resta?
De tudo- o que sou?

Meu amor não dorme
Vigia - eu sei
Meu sono cansado
Cerrado ao final
Ao fim da batalha
Vivas não dei
Meu amor não dorme
Me guarda do mal

A noite avança
Que dia, meu Deus
E já sem tardança
Amanhecerá
Minhalma dormita
E os sonhos meus
Passeiam na terra
Que um dia será

A longa jornada
De um astro que errou
Através da estrada
Fulgente apogeu
O aço da espada
Retornando ao chão
Meu amor não dorme
Por quê durmo eu?


Claudinei Soares

Claudinei Soares

Tropecei num tipo estranho de amor

10:48

Tropecei num tipo estranho de amor
Quando vi estes olhos cansados
de um verde de olhos de gato
De um verde de folha ao sol

E senti meu coração espremido
No lagar e produzindo vinho novo
Espesso, forte e misterioso
Como um elixir alquímico

Tropecei num tipo estranho de amor
e queria que você soubesse
O quanto é lindo.

É um negócio que parece brincadeira
disposto a cultivar teu riso
Atento à sua menor tristeza

E encantado sempre com tudo
Porque a vida se reveste de sentidos
Que antes estavam menos acessíveis
Que a mais longínqua das altas estrelas.

Sonho que você deitará no meu colo
E dormitará um merecido sono
Almejo deitar tranquilo em seu regaço
E deixar correr estas contidas lágrimas

Quero te ver alcançar as montanhas
Quero saber que cruzou oceanos
Tropecei num tipo estranho de amor
E quero ser quem te espera chegar.


Claudinei Soares