Eu não sou nada

Há uma noite dentro de mim. 
Mesmo quando o dia
Gigante que é
Pisa com seus pés de fogo
E calca com eles o cume das mais altas montanhas
Mesmo quando o sol
Faz o ar espelhar como água 
Refletindo o céu sobre o asfalto negro de uma estrada

Existe uma noite dentro do meu tórax 
Querendo rebentá-lo em filamentos negros e rebeldes
Um fundo de poço que mora nas pupilas dos meus olhos
Onde uma pedra não gera marolas
E mergulha no azeviche do oblivio lenta e calada
Eu não sou poeta - Ela pensa
Nem sou velho, nem criança 
Nem menino, nem menina
Nem homem nem mulher 
Eu não sou nada.

Existe uma noite de estrelas azuladas
Tremeluzentes e tíbias
Constelações ignotas que nada contam
E nada podem apontar
Existe uma noite correndo em minhas veias
Com uma besta fera que te implora um afago
E que não sabe se te aceita sobre os ombros 
Ou se te estripa e te rasga a jugular

Há uma noite 
Eterna e implacável 
Inexorável como uma sentença 
Crua e gélida como uma espada
Asas nauseantes que me envolvem
Abafando uma canção atormentada
Eu não sou poeta - diz a letra
Eu não sou besta nem sou anjo
Eu não sou gente, não sou bicho
Não sou verso, nem silêncio 
EU NÃO SOU NADA.

Claudinei Soares

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