Ela disse que daria uma olhada mais tarde, no momento, estava ocupada com as coisas da vida, ou seja lá com o que for.
Ele trocou de camisa, por três vezes e, talvez, tenha percebido que não sairia naquele momento, não tinha o porque de usar camisa.
Ele escreveu por cima do que já tinha escrito, deu um suspiro:
- "acho bom fazer um café".
O sol ainda aquecia, o que fazia, a necessidade de usar uma camisa, ser desnecessária naquele momento.
Mas, o sol poderia aquecer, como aqueceu a algum tempo atrás o Rio de Janeiro, quando os termômetros marcavam temperatura superior a do deserto do Saara.
50 graus é só metade dos 100 graus da água para o preparo do café, pode o sol que, assola o sertão, queimar, o jovem não subestimava a necessidade que, seu corpo tinha, do líquido escuro. Tomava sem açúcar mesmo, certamente não o fazia por saúde, não fumaria, se essa fosse a razão.
O café estava quente, o dia estava quente, seu coração estava quente, o sangue parecia fluir como cada pensamento.
Pulsando o miocárdio, pulsando a vida.
Ele escreveu algo e leu, com prazer incoerente, duas poesias de bukowski.
Preferia; julgou preferir Quintana, deu-se por satisfeito em conhecer ambos.
Apanhou a camisa preta, sobre a cama, lançou-a sobre o ombro e saiu.
Andou duas ou três quadras, não poderia saber ao certo quantas, estava distraído, tentando não esquecer de uma das poesias que há pouco havia lido e que, também, tinha saído para comprar cigarros.
Não viu o cachorro que abanava o rabo, enquanto ele pensava na posteridade. Se ele tivesse não pensado na posteridade, se não houvesse afeição daquele ser pela posteridade, como não havia em Quintana, certamente, ele teria vivido o poema que não queria esquecer.
Tudo bem, ele estava sem carro, então, não daria pra ele ser ator da cena do poema, ainda bem, por um lado, assim ele não poderia tirar seu pau para fora e se tocar, pensando na garota sentada na parada do ponto de ônibus.
Que todos os ônibus brancos e feios as levem para longe dos olhares de quem só enxergam o que excita sua cabeça sem olhos, nem cérebro.
Já havia comprado o cigarro e chegado a conclusão, estava de certa maneira, decepcionado com o poeta. Porém, não podia negar a coragem do mesmo. Por fim, concluiu, com um copo americano, com café, em uma das mãos, enquanto abria a porta com a outra.
Desajeitado, proferiu a conclusão em voz alta:
-"A coragem na verdade é só cara de pau, ou falta de senso".
parada na porta, ainda do lado de fora, fez-se uma feição desajeitada, como o jeito de quem abriu a porta, fez de conta que o aceitava, mesmo estando louco.
Entrou, lançou o corpo, cansando, de quem passou a tarde ocupada das coisas da vida, no sofá, e euforicamente disse:
-"Amor, amei os poemas do Ricardo Reis, que você me mandou mais cedo, só pude os ler depois do expediente, mas estava tão curiosa para ler, que me sentei no banco da parada do ponto de ônibus e li ali mesmo.
Ele pensou, mas, dessa vez, não verbalizou os pensamentos:
-"Ainda bem que escolhi Reis e não bukowski."
Espero que ninguém tenha se masturbado no estacionamento do mercado, dentro do seu carro, pensando na minha garota, sentada no banco, da parada do ponto de ônibus.
De fato, estou decepcionado com bukowski."
Marcelo Souza
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