Ponto de vista


Eu olho pessoas fortes e as contemplo.
Invejo secretamente a capacidade de acreditarem em si. Não me orgulho de inveja-las, mas compreendo os motivos que me levam a isso.
A parte dessa história que mais me assusta é pensar que do outro lado desse frame, possa ter alguém a me olhar e me achar forte, segura. Me achar decidida e exemplar. 
O medo de ser uma fraude só aumenta a coleção de medos que carrego no peito.
E aí eu questiono novamente: será que todos são fortes de fato, ou buscamos nossa melhor versão para “servir” ao público?
Eu escrevo sobre empoderamento feminino, sobre relacionamentos, sobre aceitação e amor próprio.
Eu sou militante assídua e empenhada dessas, e de tantas outras causas, justas e admiráveis.
Mas eu vou confessar para vocês: eu pergunto diariamente para as pessoas que me cercam se elas ainda me amam! 
Eu acho todos os dias que meu companheiro vai me deixar. 
Eu acho que meus amigos não me suportam mais, e não sabem como me dizer. 
Eu acredito que minha família está melhor sem mim e que a pandemia foi a desculpa perfeita para eles não precisarem me encarar. 
Eu acho que meus seguidores, quase 8 mil hoje dia, estão ali somente esperando meu primeiro vacilo para me apedrejar nessa arena pública e genocida que é a internet... 
Eu acho que todas as mulheres são melhores que eu, e que a cada dia sou pior.
Aí você me questiona: então você é uma pobre coitada, o mundo te odeia e você é a donzela abandonada da torre?
Porra! Não!
Eu sou diagnosticado com Transtorno severo de ansiedade com picos de Transtorno Conversivo. Sim! Eu sofro de um transtorno que me faz acreditar que sou um incômodo no mundo! Que gasto o tempo e a energia das pessoas. Que se eu não as diverti-las, entretê-las, seduzi-las, eu não tenho serventia. Eu preciso o tempo todo reafirmar minha existência.
Isso é foda! Isso é muito foda!
Ouvir de alguém que se ama que você é insegura. Ouvir de alguém que te admirava, que está decepcionando com seu comportamento...
“Logo você?”
“Você viu a Vick, fez aquilo, não esperava...”
Sim, suas expectativas sobre mim só me afogam ainda mais.
Desculpe, é verdade! 
Eu realmente não acredito que possam me amar, que possam optar estar me minha companhia por mero prazer!
Eu me sinto sozinha. Mesmo acompanhada.
Aí eu paro, respiro na boa e velha técnica de esvaziar os pulmões e racionalizo. Me organizo, na medida do que dá, e me agarro no pouco, porém importante, do que me recordo de mim.
Vejo que dou a vida pelos que amo.
Vejo que posso ouvir aqueles que precisam falar.
Vejo que crio uma coisa legal ou outra.
Vejo que meu corpo, mesmo não sendo o que queria, me carrega pra cima e pra baixo, permitindo que eu viva.
Vejo que as pessoas que estão a minha volta tem várias opções e por algum motivo, ainda me escolhem.
E assim vou levando...
Esse dilema entre não ser nada, ser um estorvo e ser especial.
Sei que não estou sozinha nisso! Sei que preciso, cada dia mais, terapizar meus demônios e encarar minhas limitações e enfermidades.
Preciso me respeitar! E exigir respeito.
Eu preciso exorcizar minha cabeça e reencontrar minhas certezas.
Mas agora, eu só preciso que o ar volte aos meus pulmões.
Que meu coração desacelre.
Que minhas mãos parem de suar.
Eu só preciso respirar...

Vick Vital

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