Romance Traço

18:48


Lembro da gente deitado
num sofá em que mal cabia
um sujeito só sentado

seu peso em cima de mim
e eu te afagando os cabelos
e eu te contando histórias

aí vinham as cãibras
e a gente se revirava
e começava tudo outra vez.

Lembro da gente sentado
no mesmo sofá que insistia
em ser curto e apertado

Seu rosto de serafim
me regalando de apelos
e eu destilava memórias

aí vinham as sombras
e a gente se afastava
sonhando a mesma viuvez.

Lembro de você dedilhar
meu violão e cantar
e eu chorar consoantes

para dores tão abissais
casarem-se com as vogais
porque ninguém nunca jamais

havia me feito isso antes

Lembro de me aninhar
disposto a acreditar
nesse teu colo marinho

que ali havia encontrado
o sonho mais destrambelhado
de que tudo agora estava acertado

o começo do fim do caminho

mas sabe como é, querida
este novelo da vida
que o gato vil do destino

faz o que quer na procela

Assim nos deitamos mil vezes
Assim nos amamos mil vezes
da fonte viramos fregueses

só pra cair na esparrela

Lembro de todo o passado
pois nosso amor foi deitado
(gozado pensar na vida)

porque veja como é:
Só lembro da gente de pé
no dia da despedida.


Claudinei Soares

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