Um pouco de cada

É quando a gente não tem palavras que é melhor falar
Quando as cartas dadas não vencem o jogo.
Quando não existe um jogo ou quando estamos dispostos 
À mostrar tudo o que temos
Eu não tenho nada, vê?
Nada
Blefes e truques
Blefes e truques 
Um balão que encanta e voa
Mas voa apenas porque é vazio.

Se me rasga a pele ou sopra a chama frágil lá dentro 
Vai ficar com uma montoeira de nada nas mãos 
Não sei como vim a ser, se me fizeram ou me fiz assim
Um pouco de cada, suponho
Um pouco de cada
E machuquei você 

Já tive forças para me odiar... hoje não tenho motivos 
É como quem assiste sua casa ardendo sem chorar.
Vai morar onde?
Isso importa? Isso interessa?
Os poemas estavam lá dentro
Quem se arriscaria para os salvar?

Deixa eu cantar em paz
Estou cantando baixinho
É uma canção sobre o desamparo que conheço 
Sobre o amor que estou tentando conhecer
Lembro de já ter sido ingrato 
Ganhando presentes
Uma vergonha que não consigo apagar

Lembro de chorar até o desmaio
E de acordar assim
E o silêncio nesta casa lembra
Lembra o passado demais

Não faltam lâminas na gaveta
Mas com qual delas
Com qual delas
Eu cortaria esse fio que me enforca a alma?

É quando não temos palavras 
Que é melhor dizer
Está doendo tanto
Tanto
Tanto

Como se eu tivesse entranhas
Não fosse só calor, papel e ar.

Claudinei Soares

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