Vem vindo

Vem vindo um porco
Sangrando pela estrada
Um porco
Um porco grande
Ele cambaleia, agoniza e avança 
Está às portas
Do vilarejo
Dobrou a curva
Tomou a reta
Resvalou nos arbustos
Ensanguentou as marias-sem-vergonha
Os antúrios, as aricangas
A folhagem sem nome
Na beira do carreador
Rubro com verde sob o sol
Parece rubi na verdura
Esmeralda e rubi.
O porco 
Avança 
Arfante, débil e pesado
Marcha como nuvens de tempestade 
Marcha como exército inimigo
Marcha com o desespero de quem foge
Ou de quem busca
Não sei
Que sei eu?
O porco 
Vem vindo aí 
Sangrando.
Mas não morre.
Não vai morrer
À não ser que o matemos 
Quem vai criar coragem
E acabar com a miséria do porco?
Quem vai entrar na reta
E acabar de dessangrar o desventurado?
Hah, bicho brabo!
Quem vai cruzar o caminho
Do bicho?
Quem?
Alguém tem que fazê-lo.
Ele não vai parar
Vai vagar tartamudeando
Pingando este sangue nosso
Manchando os caminhos
As folhas as paredes das casas
Mas não é um cordeiro
É um porco
Não é um anjo
É um porco.
Alguém tem que fazê-lo parar
Pôr fim à essa mixórdia
Mas o porco incontinenti 
Avança casario afora
E grunhe para as ruas medrosas.
Canivete em punho
Será uma carnificina 
Tijolo em punho
Será uma desgraceira
Porrete em punho
Eu nunca tive um relógio 
Mas chegou a sua hora.
Morre! Morre! 
Morreremos todos um pouco 
Viveremos bem mais depois 
Os golpes são sem ódio e sem culpa
É só fazer fluir
Sangue represado
Deixar cair
A massa de carne que reluta
Se espírito houver
Que saia!
Morre, porco!
Morre, parco!
Morre, pouco!
Morre, capado, recalcado, confinado e gordo

Morre, animal de abate
Morre, é para isso que nasceu!
Morre, e os javalis do passado
Talvez sintam uma nesga de orgulho de você.

Claudinei Soares

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