História de assombração

12:10

Arte Adrian Kirby
A noite avançava, e os cavalos troteavam manso na estrada larga. Ia sem pressa, a lua mansa despontando vagarosa, a cabeça cantarolando modas antigas, o rifle batucando na cacunda. Eu, Nezinho Guedes e Bastião Bé. Vez por outra a cara barbada do Bé alumiava afogueada, quando tragava de golpe grosso o palheiro que trazia parafusado no beiço, os olhos cor de aço chamuscado sempre a remoer algum agravo entranhado. Homem maquinante, mãos de tenaz segurando a rédea, o cavalo redomão numa obediência de fazer gôsto. Uma velha faca sol numa bainha de couro grosso, o cabo de chifre liso de uso, a lâmina sequiosa de couro de coisa vivente, fosse qual fosse. Nezinho Guedes à minha direita, a trunchada dois canos na cintura, rosto barbeado, cabelos negros em caracol orlando a nuca do chapéu. Nariz adunco, riso raro porque franco, homem de campo, de plantação. Amigo nosso, tomou rumo junto. Eu? Ali no meio estava bem a meu gosto. Não sou de se fazer nota. Era homem malferido de amor, naqueles tempos. Calado. Cantava depois da chuva -que nem urutau- e caçava a morte para vê-la fugir de mim. Noite avançando. Os animais, como iam de manso, não iam tão cansados. Nezinho guedes foi quem apontou primeiro, vendo que em meio de estrada plantava-se um cavaleiro. De través, duro. _Uai - disse, sem moderar passo, acenando com a cabeça - E quem será esse peão aí? _Não gostei- falou Bastião. _De longe assim não atino quem seja - falei - vamos achegando com a mão no aço, para ver. Nossos animais seguiam incontinenti. O homem feito estátua. O cavalo nos fitava de pescoço esticado, mas nem abanava o rabo, nem pateava nem nada. Ambos duros, uma mancha escura. Cavalo e cavaleiro feito massa de azeviche. Meu coração enregelou. Transparecer não deixei, e avançamos. Nezinho cuspinhou, ouvi o cão das armas travando nos coldres. Cigarro na boca, Bastião ganhou um pescoço de dianteira, tragando o palheiro de modo à largar brasa. Pressenti estralada, fui de mão no coldre, engatilhando o companheiro. Perto, mais perto, o clarão da lua crescendo pelas nossas costas, e nada de se deslindar a figura. Nem um brilho de arreio, nem um resfolegar da montaria. Parecia uma sombra, um desenho num papel. Estava à obra de uns dez metros na reta, barranco do lado direito, baixadão na esquerda, campo sujo de mato carrascal. Nezinho Guedes saudou um Boas noites, e nada do caboclo acenar, fazer muxoxo que fosse. Meu coração. Digo que no inconfessável sentia um pontalete de gelo na esquerda dos peitos e a guela mais seca que um osso. Cinco metros. O homem está de capa. Capa deal, sabe? Chapéu desabado, rosto nenhum se via, mão da rédea em postura fidalga, sei que nos olhava, mas não te digo como sei. Sei agora como soube então - aqui por dentro. Não enfreamos, e os cinco já eram três metros, e a figura impassível cruzando a via, opondo barreira. Dois metros, minha mão sem minha ordem encurtando a rédea, o animal troteando indiferente. Aí se deu a coisa. De soflagrante enfreamos, dando um puxavante de rédea, olhando para o baixadão à esquerda: Cadê o homem? -Mas que charada é essa? Nezinho sacou a dois canos, eu volteei meu bicho para o lado do barranco, o mato intato, nem grilo cantava no capinzal. Bastião Bé soltou um mugido daqueles que a gente dá quando acha algo que perdeu. Estava virado de todo para o sentido de volta. O cavaleiro estava lá. Mesma posição. Trezentos metros de nós. Apontou uma 320 para o lado dele. -Larga disso - sussurrou Nezinho - não é gente, Bastião! -Arre... -Virge Maria - sussurrei, vendo que a lua estava banhando o cavaleiro, com sua capa sem brilho, seu cavalo sem luz em parte alguma. Benzi o corpo. Três vezes. Dizem que os bichos pressentem essas coisas. Minha égua francisquinha nada pressentia. Não se agitava. Ficamos ali, num impasse com o cavaleiro de outro mundo, esperando dele agora algum movimento. Espera que alongava, ele quieto tava e quieto ficou. -Hum- falou Nezinho- acho que o certo mesmo é nóis ir embora. -Por quê? -Porque nosso caminho é indo, e não voltando. -Que tem isso? -Tem que passar por ele nós já passamos - falei eu- nosso caminho segue para baixo, Bastião. - É... Está certo. Viramos. Primeiro Nezinho, depois eu... Bastião por último, boca de fogo apontando ainda, guardando nosso corpo. Nos alcançou aos trotes, ninguém fugiu à galope. -Coisa de outro mundo - murmurou Nezinho. -Coisa que bala não fere - ajuntei eu. -Hum... Eu não atirei para saber - falou Bastião. E troteamos. No cruzeiro parei e rezei. Pedi livramento à virgem, me perguntei se não era o tal cavaleiro uma alma atormentada. Uma que nem a minha, talvez, mas sem mais carne para alcançar perdão ou emendar as coisas. Naquilo pensei quando arranchamos, naquilo penso sempre.

Claudinei Soares

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