Meditação Noturna

21:25


Não acredito que Lilith imaginasse quando pela primeira vez a noite envolveu seu corpo nu, que alguém fosse sentir pelas trevas amor semelhante ao dela.

Eu, porém, sinto.

A carícia escura, fria, assexuada e impessoal da escuridão me foi bem-vinda desde que pela primeira vez o sol desapareceu diante dos meus olhos, levando consigo suas fainas, suas certezas. O sol é companheiro dos homens na odisséia de sua arrogância, enquanto a noite sempre ameaça lançar por terra suas obras, ameaçando com pedregulhos de mêdo os pés de barro do ídolo que seus duros trabalhos fragilmente sustentam. Mas não é por isso que a amo, e sim por sua imparcialidade, a pureza que ela manifesta na única forma indiferente de volúpia que conheço. A noite é uma bailarina negra, sensual, recoberta por um véu capilar de prata onde cintilam os diamantes de mil Sabás, inacessíveis à sanha de todos os Salomões do mundo. Seu beijo rescende à morte de todas as coisas.

A noite ama aos excluídos, abraça os abandonados, esconde os fascínoras e os maus, atravessa as grades e as portas dos hospitais, manicômios e cadeias, e em sua impudicícia pagã cumpre o mandamento ignorado pelos cristãos convictos: Estava doente e me visitastes, estava nu e me vestistes...

Com seus beijos e lambidas frias a noite, pulsando em seu prazer execrado bebe o pranto daqueles que o sol esconjurou, que a sorte traiu... Murmura "eu te quero" nos ouvidos feridos dos excomungados, e coroa com orvalho e frio seus amados, enquanto o sol enche de ouro a cabeça de seus bem-nascidos.

Anoiteço.

Escureço.

Choro.

E assim conto meu tempo, pela chegada da escuridão: Assim sei o que ainda sou, e o que não sou mais. 

Amores que acabaram, casas que nunca foram meu lar, lábios entretidos em bençãos passadas ou maldições presentes, amplexos que me acolheram e hoje me banem. E os mortos. Os indeléveis finados. 

Na escuridão compartilhamos o mesmo silêncio, o mesmo esquecimento. E as paisagens mudando, eu hoje caminhando por dentro de colinas que não mais existem, sentando-me em pedras que nutriam suas entranhas para ver meu espectro passado sobrevoar meus passos presentes... 

Não sou mais amigo, ou amante, ou filho, ou pai, ou vizinho, ou deste lugar, ou daquele, tudo se decompõe no vórtice do tempo, noite indo e vindo, um estroboscópio milenar dissolvendo estações e eras, e eu recebendo seu afago, sua mensagem cifrada pelos intervalos, seus beijos de vazio e sombra, seu sorriso de compreensão. Os filhos da noite não precisam se esconder para chorar, podem uivar tão alto quanto lhes permitam seus pulmões. E eu choro, eu uivo, e estendo as mãos, sem disfarçar mais, as unhas recurvas tentando em vão alcançar por um instante o que já não é... A imagem da amada se fragmentando como numa revista velha exposta ao calor, as ruas crestando o chão com seus pavimentos, a face de tudo progredindo (que é o progresso se não a senilidade das obras dos homens?) Voam sobre mim monoplanos, biplanos, jatos, e navegam em mim pirogas, juncos, trirremes, caravelas e bergantins... Pedras lascadas se tornam granadas de mão... Turbas da Bastilha à Paulista, linguas e versos e beijos e a noite, as noites, e existir que é se não um lapso entre uma e outra noite? A noite é um coração pulsando entre um sol machista e outro, sempre cantando assim: Não mais, não mais...

Claudinei Soares

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