Dia a dia

21:44

Apartamentos acanhados.
Vizinhança inculta e pobre.
Números gastos, madeiras meio apodrecidas ou castigadas por sóis e chuvas repetidas, luares inócuos e estrelas zombeteiras... Luiz galgou as escadas com os joelhos tremendo, os sapatos novos insultados pelo cimentado poento de cantos rústicos, as paredes de um reboque grosseiro. A cada passo, sua vontade de disparar para o estacionamento e voar em seu Audi (por que diabos viera com o Audi? Por que não viera com um carro simples da empresa?) Esquecendo essa insanidade toda para sempre quase o dominava como um surto. Observando o mau acabamento de cada espaço que surgia, concluiu duas coisas: 1: Na favela a falta de conhecimento, recurso e senso estético leva a pobretada à criar aqueles comboios do inferno onde se amontoam, as cadeias onde voluntáriamente se reunem para mais uma noite de fermentação desses aromas de multidão que para ele eram abomináveis. 2: No conjunto habitacional, como aquele onde estava, sua inadaptabilidade se manifestava naquela arte rupestre por todos os cantos, a sujeira, a velocidade com que o prédio se deteriorava... Mas quanto à estética degradante, isso não era culpa deles: O governo fazia isso de propósito. Tirava o povo de seus ninhos de rato... Pondo-os em gaiolas, jaulas de cimento armado. O governo, feito de gente como ele, pensava como ele, tendo nojo de quem desentupia seu esgoto, levava fora seu lixo e lhe preparava o desjejum. Para Luiz, poucas coisas eram mais reconfortantes que isso.
Nos passadiços cruzou com esses meninos negrinhos catarrentos, com suas caras cheias de manchas, esses cortes de cabelo em que as cabeças parecem campos cultivados ou melancias ou então aquelas trancinhas... Que nojo ele tinha das trancinhas. Alguns já o olhavam com ódio, impávidos, com suas calças caindo, enchendo o ar com seu orgulho e seu fedor. Esses iriam retaliar no futuro. Roubar seu relógio, sequestrar a vadia drogada e inútil que ele chamava de filha querida numa vernissage ou inauguração à qual ela aquiescesse em levar sua carne gelatinosa repleta de tatuagens.
Por instantes, flashes de algo inconfessável passaram com o ruído de uma moto-serra sobre uma chapa de zinco diante dele.
Parou, tomou fôlego, sacudiu a cabeça como uma cão molhado: Sua mente estava afetada por aquele lugar, tudo respondia como um corpo infectado à sua elegância, seu perfume, suas unhas bem feitas, os corrimões pereciam odiar suas mãos macias, a sujidade de tudo rosnava contra sua higiene.
Mas continuou, sentindo a poeira daquele antro aderir à sua pele conforme o suor manava dos poros. Galgou mais um lance de escadas e pegou um corredor cravejado de portas feias adornadas com penduricalhos, adesivos ou mesmo pixações. Murmurou uma maldição pensando no que aqueles malditos fizeram com a droga dos números. Depois sorriu " os desgraçados mal sabem contar".
O apartamento 77, porém, tinha seu número de melal vagabundo tão fixo quanto permitia a porta ainda mais vagabunda.
Aproximou-se dela com um temor reverente, e quando ia metendo a chave na fechadura, um daqueles pequerruchos, negro como um buraco sem fundo, olhou-o com olhos emoldurados por conjuntivas vermelhas e inchadas, dirigindo-se à ele neste dialeto nauseabundo:
"Ô".
Coisa que ele responderia com palavrões e chutes se pudesse. Como ele odeia isso. Povo deseducado, povo nojento! Tem que ser mesmo um aborto vivo, um pedaço de lixo, um monte de merda para sair por aí chamando os outros de Ô. Flanelinhas, guardas, quem fosse que fizesse isso ele queria esfolar:
"Meu nome não é ô, pirralho"
Indiferente, atirado num canto como uma marionete abandonada, os membros como que desinflados, apenas a cabeça demonstrando alguma vivacidade, o pequeno continuou:
"Cê que mora aí?"
Pergunta estranha.
"Porquê?"
"Cê que mora aí?"
"Você, aonde mora?"
"Aqui."
Luiz sorriu. Coisa idiota. Se ele mora aqui, sabe que eu não - pensou.
"Mora no apartamento em frente?" Indagou Luiz, tendo certa dificuldade para acertar a chave na fechadura. Notou uma mancha ferruginosa descendente em cada peça de metal na porta, como se estivesse exposta à chuva ou fosse lavada com frequência. Nesse momento notou que o menino se levantava. Se levantava é uma definição, por falta de outra: os membros do menino pareciam mesmo vazios, como os de uma boneca de pano sem recheio. Ele parecia estar sendo içado por mãos invisíveis, os olhos vermelhos fitando Luiz, a boca aberta num sorriso impossível, como se lhe tivessem aberto as bochechas com um facão.
"Eu moro AQUI"-falou.
A chave pareceu ser sugada com sua mão de encontro à porta, um horror estranho lhe percorreu as veias como um baque de LSD, desaparecendo no segundo sequinte, quando o menino parecia estar novamente ao chão, sem sorriso, sem lhe dar qualquer atenção, brincando com um carrinho de metal.
Penetrou pelo umbral como um foquete, fechando a porta atrás de si de moto violento.
"Hum" Uma voz grave e profunda soou diante dele. Estava escuro. O ar cheirava à sândalo, à mirra, à essas coisas de hippie. Abajures acesos. Cortinas de pecinhas de plástico ou vidro colorido, balançando sem a menor brisa, uma vez que as janelas estavam fechadas. Roupa branca. Sapatos, calça, camisa... Olhos vivases sob um chapéu treliçado de material igualmente branco. Pele negra. Mãos fortes, repousadas sobre os joelhos, reluzindo pedrarias em estranhos anéis. Sapatos de médico. Podia ver que eram caros.
"Fala, Ô" -disse o homem, com um olhar que não demonstrava aversão ou empatia, mas ao mesmo tempo causava nele um misto onde predominava o desconforto.
"Meu nome é"...
"Sei teu nome".
Luiz sentiu algo gelado em sua barriga, como se isso o deixasse desarmado.
"Tenha a bondade" - disse o homem, indicando uma cadeira. Luiz sentou-se era confortável, surpreendentemente confortável. Á medida que seus olhos se adaptavam, percebeu a mobília do lugar: uma acanhada sala de visistas, onde toalhas baratas de um colorido berrante ocultavam mesinhas e outros móveis num alinho sofrível. Tudo parecia não sujo pelo uso, mas pelo abandono.
"A que devemos a honra?-prosseguiu o homem- Naturalmente, é uma pergunta retórica"
Luiz esboçou um sorriso. " Eu poderia lavar o rosto?"
"Como queira" -respondeu o negro, sua voz de sambista da velha guarda ressonando pelas paredes de monótono tom pastel, talvez cor de areia.- "à sua direita"
O aceno do homem parecia maquinal e calculado. Luiz começou a se perguntar se aquele não era apenas mais um crioulo vigarista, querendo uns tostões e bancando o bom.
Ao entrar no minúsculo banheiro, a privada sem tampa foi o que primeiro lhe atraiu a atenção quando a luz deixou de ferir os olhos: ele entendia dessas coisas, aquilo não era usado ha muitos anos. Rogou aos céus para não ter de sentar-se naquilo. A pia trazia sua torneira mequetrefe
também emperrada pelo desuso.
A água saiu numa cor inaceitável.
Voltou á sala seco e mais sujo que antes.
"Dia dificil?" - indagou o homem.
"Bastante" - disse Luiz, com seu riso nervoso que muitos já haviam confundido com amabilidade.
"Nota-se". O homem cruzou as pernas, buscando uma posição mais confortável em sua poltrona (era uma poltrona, Luiz agora a via bem)."Considere esta penumbra uma gentilaza que lhe fazemos, sua função é não agredir mais o seu já insultado bom-gôsto".
Luiz sorriu, e conteve-se à seguir. Sorrira mais ali em dez minutos que nos últimos seis meses.
"Ora, senhor Luiz... Sorrir não é nenhum crime... Sorria à vontade".
"O senhor parece ler meus pensamentos".
"Pareço, não? Sou um apreciador do riso, meu amigo... Não disse um certo filósofo que o homem difere do animal porque ri? Quem foi, mesmo?"
Luiz estava embaraçado.
"Não, não responda" - continuou o outro- "deixemos assim... E, como de praxe, me diga: a que devemos a honra?"
"Meu motorista, o Robério... Ele me falou do senhor".
"Certo".
"Disse que eu deveria fazer uma consulta... Para coisas espirituais que estou precisando".
"Coisas espirituais?"
"Sim"
"A que coisas espirituais se refere, Seu Luiz?"
"Bem... - outra vez o riso (pare de rir, pare de rir! Ele gritava consigo por dentro)- ... É complicado..."
"Exponha"
"Estou com problemas de dinheiro, a última leva de apartamentos está custando vender"
"Sim"
"Também tem a questão da minha esposa, ela quer se separar de mim, e está pronta para acabar com metade do que juntei todos esses anos..."
O negro começou a apanhar amendoins de uma tigela num criado-mudo... Sob a luz do abajur, ao lado dela, um charuto aceso num cinzeiro de pedra. Luiz não notara estes itens. Não notara ou eles não estavam lá antes?
"Prossiga"- disse o homem que brincava com um amendoim entre os dedos.
"Tem a questão mais séria... Eu e um empreiteiro estivemos envolvidos numa tranzação com o Estado... Meu advogado me informou anteontem que minha prisão preventiva será decretada."
As palavras sairam dele com uma naturalidade estranha. Nem parecia que por isso perdera o sono, espancara a mulher, humilhara funcionários e chorara por horas no escritório.
"Oh" - murmurou o consultor, que roía seus amandoins e ouvia com certo enfado - "isso... Nada mais?"
A segurança do homem o contagiou. "Tem muita coisa... Isso aí é o mais urgente..."
"O mais urgente, seu Luiz?"
"Sim, eu..."
O nigromante cortou a fala do consulente com um muchocho, suspirando a seguir.
"Vou lhe dizer algo: aqui não é terreiro. Não precisa fazer essa cara mendicante e dizer que está em busca de conforto espiritual, homem, essa palhaçada é desnecessária. Você não quer bênçãos, ou sabedoria, ou conhecer o sentido da vida. Nada do que você disse tem sequer cheiro de coisa espiritual. O que você quer é vender suas arapucas de morar, chutar de vez a perua deslumbrada com quem se casou e escapar da cadeia."
Ninguém ousava tratá-lo assim. Ele demitiria, humilharia, mas ali...
"Ofenda-se à vontade" - baforando o charuto no rosto enervado de Luiz, o negro saboreava as palavras- "esta é a minha casa e valem as minhas regras".
Luiz pensou em levantar-se, em dizer que não importava se Robério havia lhe dito que o homem cobrava caro- pois ele pagaria bem e exigia respeito. Mas... O fato é que isso prolongaria sua estada ali.
"Considere tudo isso solucionado, caro cliente... Alguma recomendação no trato dos casos? Quer sair aplaudido pelos que te denunciaram? Quer vender os apartamentos restantes e construir o triplo com venda garantida? Quer sua esposa satisfeita com o nada que lhe couber?"
Luiz coçou o queixo."Será melhor que nos vejamos sempre, a medida que eu for recebendo o que quero".
"Para mim está ótimo"
"O senhor não tem búzios ou coisas assim? Não os usa?"
"Se fossem necessários, estariam aqui".
"Certo"
"É apenas isso, Seu Luiz? Seu Luiz?"
A voz do feiticeiro desapareceu e ele se viu num lugar familiar... A voz de sua mãe, dizendo que não se aventurasse pela fazenda à noite. Mas ele não ouviu. Ele saltou a janela... Ele foi para a colônia dos empregados com os primos... E aquela menina... Ele, José e Joaquim. Sua primeira mulher ele não conquistou, nem amou. Os anos passaram, ele ia de avião, viajem longa, cansativa, para aquele fim de mundo. Ali viu a menina no serviço, se juntou lá com um capiau, tinha um menino de olho claro. Claro como o seu. Até aí, tudo bem. Até que um dia, na bebedeira, um daqueles caipiras soltou a fala:
" A lá o fiu do doutor!"
A ira o invadiu.
"Ela falou isso?" - Silêncio no boteco- "Quem falou isso?"
A raiva o arrastou como um rio, e ele já estava no casebre dela, e a esmurrou, e quanto mais ela tentava escapar mais ele berrava, dizendo que ela era mentirosa, vadia, e então aquela enxada surgiu bem à mão... Ele a golpeou dezenas de vezes. Enquanto ela pôde falar, ela gritou inocência ou gritava nomes estranhos. O último, num grito pavoroso, o atirou da cama por anos: EXU!
Anos mais tarde, com isso quase esquecido, uma velha durante uma reintegração de posse lhe berrou na face: "Exu vai te pegar, mardito!
Exu... Durante um tempo teve mêdo. Mas depois... O dinheiro pagava oferendas em terreiros, pais-de santo diziam que ele nada tinha à temer... E tinha a igreja. Seu deus vivia escurraçando exus às duzias. Ganhou confiança. Até que, um dia, demitindo um negro folgado, ele lhe desfiou a vida, apontou seus crimes e ajuntou: o que você fez com a filha dos outros, fará com a sua pópria. Quem te espreita é EXU.
A menina tinha sete anos. Absurdo.
Nada aconteceu.
Viu? Ele dizia para si mesmo: coisa desses negros fodidos.
Mas no carnaval do ano retrazado...
Chegou em casa bêbado e puto. Pegou a filha com um consôlo na frente da webcam. Tapas. Gritos. Apelos à moral. Ela despejando isultos. Os seios róseos, o cheiro de sexo... A subjugou. A dobrou de bruços sobre um sofá. A possuiu.
Foi a webcam ligada, os e-mails, muito mais que o silêncio da filha o que o levou a Robério, e aos matadores de aluguel, e, por fim, àquele cubículo. Robério falou, quando ele pôs para fora seus problemas: "Procura o homem".
"Não acredito nessas coisas".
"Nem eu. Acredito no homem".
O homem sabia tudo. Podia tudo, segundo Robério.
Havia antes uma mulher. Ela resolvia os casos... Mas ficou muito saída, e por isso foi tirada de cena. Lá, com ela, ele conhecera Exu: quer dizer, ela incorporava a tal entidade. Ali Luiz pedira a riqueza desmedida da qual desfrutara por anos. Uma vez Exu disse que lhe tomaria a alma. Foi o dia em que ele mais riu em toda a vida.
Luiz só despertou de sua contemplação ao ouvir o ruido de bebida em copos amplos, o aroma de bom malte escocês enchendo sua boca de água.
"Eu lhe perguntei"-o nigromante preparava um segundo copo e oferecia ao convidado-" se isso é tudo por ora, seu Luiz."
Luiz pegou o copo, sorveu a bebida forte e a julgou excelente.
"A civilização branca é desordenada, patética" -falou o outro, rodando com os dedos o gelo no copo- "seu falso moralismo me irrita. Sua fala ao entrar é herança dele. Ajuda espiritual -seu tom era de mofa- que bobagem. Querem apenas prazer, poder, quiquezas, sexo. Sua espiritualidade é essa, e dela devem tirar seu paraíso ou inferno. Mas há algo que fazem que apreciamos: a bebida."
"O que você é? Vidente, numerólogo... Mexe com o diabo?"
"O que sou é irrelevante, o que faço é o que me define".
"Neste caso, o senhor poderia me dizer uma coisa".
"Quantas queira".
"Dizem que Exu quer me destruir".
"Acredita nisso?"
"Sim. Não. Sei lá. Não quero ele no meu pé".
"Ok"
Ok? Como se fosse pagar propina a um rábula qualquer? Como se a tal divindade estivesse na sala do lado fazendo o café com um avental de empregada?
"Você acredita em Exu?"
"Quem seria eu, seu Luiz, se não acreditasse? Esteja tranquilo, e enumere seus pedidos mais uma vez, por favor".
"1"-pricipiou Luiz- "Dinheiro..."
"Não sofrerá incômodos por causa disso"
"2" -"minha esposa..."
"Ela ficará com o que você der"
"3"-"a prisão..."
"Não verá juiz ou delegado em sua frente, eu lhe asseguro"
"4"
"Ah, sim... Exu."
"Isso"
"Não nutra preocupações. Pode partir".
Luiz quis levantar-se. Não pôde. Ouviu a porta se abrir por trás dele. Entrou um homem alto, tão alto que quase roçava o teto. Estava de calça jeans, tenis, usava óculos e tinha o cabelo muito curto. Trazia, arrastando o negrinho que ele vira. Mole como um saco vazio, ele outra vez sorria daquele modo demoníaco. Seus olhos vermelhos fitavam Luiz, que ao tentar erguer as mãos, não conseguiu. Achou que estava bêbado, ou drogado. Que diabo! Mas ao ver o feiticeiro desfazendo o koleque, descosturando a carne da roupa (como ele suspeitara, era um boneco como aqueles antigos, as mãos costuradas no pano, assim como a cabeça...) o desespêro veio. Mudo. Imóvel.
"Sua mãe não lhe disse nunca para não aceitar coisas de estranhos?" Disse o gigante recém chegado, olhando-o com cupidez.
"Me faça um chá"-disse o outro- "vou me demorar com este aqui".
...

Tambores.
Risos.
Cantos.
EXU!
Se tivesse prestado atenção...
A voz do feiticeiro em seus ouvidos:
"Vou lhe dar o que quer:
Não vai preso
Dinheiro? Não lhe fará falta.
Sua mulher? O pouco que você tem a satisfará.
Quanto a mim, no seu pé?
Não... Você ficará no meu. Que tal?"
A caratonha satisfeita da velha, rindo-se dele. A moça da fazenda, ensanguentada, acaricia o feiticeiro com volúpia selvagem, pornográfica. O operário. De branco, parece de vestido, acocorado frente ao nigromante, saudando-o naquela lingua de negros. O que ele dizia? ELAROÊ EXU?
.....

Canto de parede. Luiz só pode ver a porta do 77. No outro canto, aquele maldito negrinho. Ele ri para o canto de Luiz o tempo todo. Ou talvez não esteja rindo. Talvez queira abocanha-lo com aquela boca de peixe do abismo.
Luiz ouve os rádios e tevês dos vizinhos, sabe que o estão procurando. Se martiriza, mas não berra, nem chora - porque não pode. Os dias passam.
Do outro lado, toda a vez que o sono vem, o negrinho sacode as mãos que agora tem uma ou outra bola de recheio nos braços. Não fossem as pernas ainda vazias, e Luiz estaria ferrado. Luiz sabe o que é o recheio dentro do negrinho. São seus olhos, suas gônadas, seu sangue. Prefere não pensar nisso. Seu nome some do corredor, das tevês e rádios. O sono bate, o outro sacode seus molambos. Amaldiçoado filho de uma égua.
Certa manhã sente algo como uma eletricidade nas entranhas. Sente-se capaz de se mover. Ao seu lado, um carrinho de metal. Intenta levantar, fugir, mas só sabe mover o carrinho e vibrar os beiços. Se quer parar, não consegue.
Aí entra aquela mulher. Seu perfume o lembra coisas. Ela! Ela! O que ela faz ali? Está evidente que chorou muito, os cabelos louros emoldurando um rosto que ele tantas vezes batera e beijara... Sua mulher!
Ele se infla de força, formula a frase: "Elza! Não entre aí! Elza! Sou eu, Luiz!"
O que ele ouve o faz chorar, berrar, espernear por dentro:
"Ô!"
"Ô!"
"Cê é que mora aí?"

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