Não é só pela sua cor.

13:08

Arte Pete Linforth
Não é só pela sua cor.
Sua burrice te impede de ver
Mas se esforce e comece a entender
O que está evidente na rua
Quem falou que a casa era tua?
Quem falou que a vida era tua?
Disse que teu voto te dava poder?
Quem falou?
Não seria o neto
De quem estripou seu avô no chicote?
Seu trouxa! O bote já foi dado,
Você não é ladrão, você foi roubado
Te roubaram o orgulho, te roubaram os deuses
Te roubaram a origem
Te roubaram a identidade
Te roubaram o orgulho - pra falar a verdade
Não te roubaram: te ferraram
Com prazer, com força e de tal jeito
Que você é a única vítima
De um crime perfeito
Já que te roubaram enquanto te alargavam o rabo
Hein, ô vida loka, Hein, marginal brabo
A tua capacidade de perceber.

E você se acha com sua ostentação
Quando aponta a quadrada
Aterroriza a quebrada
Chefe de quê? Seu vacilão
Qualquer hora dessa acaba algemado
De cabeça baixa é sentenciado
E vai render votos para algum deputado
Sem saber que o cara era teu patrão.

Não é por causa dessa sua cor
Não é por causa do ônibus que você põe fogo
Não é por causa do cheiro de esgoto à céu aberto
Por baixo do perfume
Sua rebeldia embala o velho jogo
Não não é por causa da educação
Que você não tem
Não é por causa dessa sua fala
É porque é isso que tem pra tua raça:
É cuspe, é tronco, é chute, é choque, é ferro, é bala!

Entendeu? Duvido. Meu querido
Você só não está desesperado
Porque não notou o quanto está fodido.
Vai para tua casa, come o que tiver
Veja a tua mãe feito possessa clamar
Agradecendo a Cristo o que houver na travessa
Um deus cordato, um deus humilhado
Um deus que agoniza pra morrer traído
E enquanto se reza a ele comovido
Quem prega a palavra come caviar.
Entendeu?
Não é pela sua cor.
Não é porque você apodrece com os irmãos
Num barraco sem água
Fedendo à urina, sem piso, sem luz
Não é porque seus velhos deuses sejam falsos
É que isso é o que tem pra sua raça:
É cuspe, é sangue, é dor, vinagre, é fel, é cruz!

Entendeu? Cobice!
É justo cobiçar... Pena que seu pobre meio de roubar
Dependa da força de suas rudes armas
E por mais poderoso que seu cartel seja
Nunca fará frente á menor das igrejas
Ou á quem te governa - e rouba- com palavras!

Entendeu?
Não é por causa dessa sua cor.
Não é por causa de sua suposta marginalidade
É porque não te darão o que é para a raça deles:
O respeito, a condição, a LIBERDADE!
Entendeu? Então atira
E a verdade tente apagar na bala.
Vivo eu testemunho a tua miséria
Morto eu guardo podre o teu lugar na vala.


Claudinei Soares

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