A gente começa a morrer

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A gente começa a morrer
No dia em que começa a morrer.
Minha mãe nunca me deu
Algo de ruim nessa vida
A saudade que eu tenho
É ruim e eu fiz me afastando
Me afastando eu fiz mil feridas
Me afastando eu rasguei minha alma
Tantas vezes, tantas vezes
A gente começa a morrer
No dia em que se despede
A verdade envelhece a face
Mais que dias, anos e meses
A gente começa à morrer
No dia em que faz as pazes
Com tudo o que a juventude
Clamou contra e com razão
Quando versos de remorso
Escorrem dos nossos olhos
Quando nossas mãos traidoras
Contam tudo o que fizeram
A gente começa à morrer
Não para mais, isso é certo
Quando andar é difícil
Mais duro subir escadas
De lembrar que o mundo tem
Escarpas duras que esperam
Montanhas longe que agora
São por fim inacessíveis.
Agora as desculpas todas
Perderam o valor que tinham
Agora duas palavras
Se justificam sozinhas.
Não posso, meus bons amigos
Podia e me enganava
E enganava à todos
Agora não posso mais
Agora não cabem adendos
Agora a verdade é óbvia
O mundo é maior que nós
Quando a gente começa à morrer.

E agora o sabor do ar
O prazer de dar um passo
A alegria de abrir os olhos
O êxtase de um tropeço
O gosto de sal na boca
Biblioteca de vivências
Se poucas há... Que miséria.
A vida muda de face
E a gente começa à morrer.

Claudinei Soares

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