Me sinto mofando

Me sinto mofando
Me enrolando e esmaecendo
Me sinto como uma palavra calada
Censurada em bocas mundo afora
Sinto um estranho frio
Uma estranha marginalidade
Uma estranha sombra 
Me devora sempre o sol que surge com o dia.

Me sinto empoeirado
E os banhos diários não tiram esse pó de mim
Me sinto abandonado
Desusado
Me sinto ocultado
E desejo às vezes a consumação disso
Oblivio ou morte ou sei lá
Meu reflexo nos vidros das ruas 
Parece mais diáfano que o dos outros 
À cada dia que passa.

Sou um projétil 
E passei sorrateiro pela sua rua
Que foi nossa 
Sem ninguém saber.

Sou um pássaro 
Que canta em línguas estranhas 
Na praça - aquela praça 
No parapeito da velha janela
Nos meios-fios da cidadezinha 
Sou uma sombra
Sou um ninguém 
E sigo o destino
De uma foto escondida
Numa gaveta insalubre 
Sou impronunciável.

Claudinei Soares

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