Barroca abaixo


Barroca abaixo
Descendo a barroca
Ela vem de pé descalço
Por escada a raizeira
Com aquelas mãos
De arrancar mandioca
Aquele olho que intimida
Zói de onça caçadeira
Cintura fina
Braço de escultura
Um punhá pende à cintura
No beiço não põe carmim
Não dou confiança
À peão bem arrumado
O diabo excomungado
Também já andou assim

Estrada à fora
Bora estrada à fora
Ela passou bem agora
Estalando a chinela
As panturrilhas
De pedra sabão
O carcanhá bate no chão
E o vento embala a saia dela
Na testa o lenço
De apoiar rodilha
A pele da cor de manilha
Estatueta de janela
Ai eu queria
O que é que ocê queria
Estar na boca de Maria
Feito fumo com canela
Ai ai ai!

Barroca abaixo
Descendo a barroca
A escadeira às vezes toca
A folha do samambaial
A raizeira feito escadaria
Lustre é a luz do dia
O passo firme arrancando caiau
"Ô peonada
Que não tem serviço
Fica armando rebuliço
Que é pra caçoar de mim"
Cabra cheiroso
Manso e bem apessoado
Mas eu sei que o diabo
Já andou no mundo assim
Hohohohoooó

Subindo a serra
De muringa na cabeça
Com a samburá de lenha
A cumbuca de farinha
Os pés pequenos
Esfarelam espinheiros
Os assobios ligeiros
Estribilho de modinha
No meu terreiro
Eu que canto a alvorada
No seio faca amolada
Na cintura um facão
Garrado ao beiço
Um pito bem enrolado
Na mão esquerda um terço
Na direita um garrunchão.

Barroca abaixo
Vem barroca abaixo
Buscar água no riacho
Na moita do cansanção
De vez em quando
Uma trouxa rombuda
Numa aljava pelancuda
Uma côdea de sabão
Na beira rio
Faz o seu serviço
Ignora o rebuliço
De quem toca bandolim
Diz que na alma
Ela tem um bicho brabo
Sabem que nem o diabo
Bole com mulher assim.

Claudinei Soares

Postar um comentário

0 Comentários