Cresci na beira da estrada.


Cresci na beira da estrada.
Igual Pardal.
Igual Chupim.
Tudo passa
Os dois vão e voltam
Catando o painço
Que cai das carretas
O arroz na casca
Que tem que quebrar no
Negror escaldante do asfalto
Vida de Passarim ordinário
Pior com certeza que das aves de nome
Tucano não mendiga
Arara não mendiga.
"Verdade, não mendiga - replica o Tico-tico
Não mendiga mas morre de fome".

Na beira da estrada vi de tudo
Sem nada ser meu
Vida que não era minha
Minério de ferro
Boiada
Varas inteiras de porcos
Hambúrguer
Danone
Vi morte que não era a minha
Gente espremida na boca do aço
Entregando o sumo da existência.
Ouvi prece que não era minha
Velas e farofa na beira da estrada
Flores secando nas cruzes baldias
Santo de gesso quebrado a pedrada.

Voei para longe e voltei
Painço me atraiu?
Me traiu o instinto?
Instinto é razão do bicho
Homem usa de intrujão.

Não sei
O calor negro parece murmurar algo
O ruído do que passa
Porque tudo passa
Passou sempre
Vai passar de novo
Espera e observa: quer ver?
Caiu vai cair de novo
Tudo passa - mas não para o perdido:
Para passar outra vez.
Sou preto
Revoando a estrada de azeviche ardente.
Vou e volto.

Negro
Sem valia
Sem brasão
Não canto
Não sirvo para gaiola
Nem para exposição
Só para o resto da beira
Mato ralo e asfalto bruto
Chupim.
Pardal
Pedaço de carne pouca
Plumas voadeiras
E uma teimosia de setenta capeta.

Claudinei Soares

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