Tem coisa que nos surpreende.

19:47

Tem coisa que nos surpreende.
Não vejo como responder à pergunta onde você estará em dez anos.
Não vejo como.
Onde estarei em dez horas
É um mistério.
Um dia abraçarei aquela moça?
Sei não.
Vou à guerra, não sei se volto
Trabalho todo o dia
(isso significa: fui e voltei até hoje)
Penso nela sempre.
Sempre é a constante
Aguardando a quebra
E a quebra é um desastre atônito
De consequências nucleares.
Nunca mais outra vez
Adeus novamente
Mas fim, mesmo, só um.
Saudades justas, só aquelas.

Tem coisa que nos atropela.
Tem. Chuva de verão
Frio de inverno.
Era para estar lá
Mas chega sem aviso.
Perda é assim.
Calculo.
Você morrendo não aceito
O temor de minha morte
Com esse eu lido bem
Governo e administro.
É meu, pago em parcela honesta.

Pagar o que se tem
Com o que se tem é fácil.
Duro é perder o outro
O que se dá
E o recebemos
Mesmo sabendo
Que ao outro nunca se tem
Te chamar de minha
É essa bolha assentada
Na ponta afiada
Da lança.
Periclita de tão bela
De tão frágil faz-se linda
A promessa impraticável
Realizada no instante
Enquanto a morte engenha
Enquanto a dor fermenta
Enquanto a flor da ferida
Não rasga a alvura da calma
Enquanto o rio da sua alma
Não despenha vácuo afora.

You Might Also Like

0 comentários