Devaneios na estrada

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Arte de Unsplash
Gosto de dirigir. Gosto de auto-estrada, sabe? O Rodoanel, a Bandeirantes, estrada à perder de vista. Quando nem cabeça nem coração encontram paz, o melhor que faço é encontrar uns cobres no bolso: compro com eles a gasolina e caio no mundo. Paisagem dos lados, desconhecido à frente, pé na tábua. Dirigindo eu sofro minhas esquizofrenias, gesticulo no vazio, argumento com minhas vozes interiores. N...ão, não gosto de fazer isso enquanto bato bolo, por exemplo, porque estas atividades requerem certo escopo intelectual. Na estrada basta estar atento, numa espécie de transe, para a frente e para a frente... Não precisa ser nenhum cientista de foguetes para dirigir, manter-se na estrada seguro e na direção certa (que é a mesma estejamos indo ou voltando: para a frente!) racionalizar em excesso é criar problemas.

O motor vai dizendo do que precisa para vencer o terreno, o ar e a distância, você dá a ele e segura o volante para assegurar o resultado. Horas à mais de cem, e distâncias homéricas são cruzadas em minutos.

A estrada me lembra a vida, onde nos esforçamos para chegar a algum lugar sem bater nos outros ou ser abalroado, fazendo o possível para não ferrar consigo e atrazar meio mundo... Como na vida, embora haja lá alguma sinalização, às vezes é tarde demais para pegarmos a via que queremos e o fluxo nos leva para o cafundó do judas, onde não apenas estamos longe para caramba de onde queriamos chegar, como também estamos totalmente perdidos.

Foi mesmo decisão nossa acabar assim? Foi o fluxo nos espremendo que nos lançou na rua escura repleta de criaturas noturnas epicenas? Cada um pense o que quiser, tenho cá minhas idéias...

Como na vida, atalhos podem acabar em desastre, e certas conversões são proibidas... Em teoria. Gosto desta síntese, percebe? A estrada nos leva a qualquer canto, e podemos acabar onde não queremos. Sempre se corre este risco na vida, não? Informação errada... Incidentes... Acidentes...

Mas o que me atrai mais numa estrada é algo em que hoje as pessoas talvez nem pensem: a estrada exige de nós uma aceitação... Aceitação do que não podemos mudar. A estrada nos diz: "você não pode voltar agora, você não pode mudar seu curso, você pode ir rápido ou devagar, mas apenas PARA A FRENTE. Aceite isso e preste mais atenção na saída 229 da próxima vez... Se houver próxima vez. Talvez eu te ofereça um retorno - talvez não. Lide com isso. E continue."

Percebeu? A estrada murmura em meus ouvidos o que mais relutei em aceitar minha vida inteira, eu a amo por causa desta frase, sempre repetida, sempre sussurrada, esta epítome da minha humanidade, da minha pequenez: você não pode mudar isso, não pode mudar isso, não pode, não pode, não pode.

Claudinei Soares
13/07/2013

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