Do que fizemos; do que fizeste

17:34

Arte Maria Michelle
Não me resta o muro
nem a pedra
nem o beco

A janela que sempre esteve fechada
está aberta
e a vida [que seguia]
não segue mais

sobrou apenas o que o muro não divide
o caminho abaixo da pedra
e o beco pra encostar

Quisera eu reaver os nossos dias
mas dos dias não resta os dias
deles não resta o tempo
não resta a lembrança
nem a imagem
nem a ação
nem o nada

Ante a janela [fechada]
gritavamos porque eramos
[e eramos]
os donos do mundo
Mas a brisa é gelada lá fora
e o pijama de retalhos já não segura
o coração que trepidante e frágil pede desesperado
novamente pela escuridão

A janela some
as paredes e o chão também
e nos vemos voando
[e como é bom voar]

mas o céu já não nos basta
aprendemos a arte da conquista
da mistificação

então pousaste em terra firme
mas não pude
cada vez mais alto conhecia
as profundezas dos abismos

me lancei [novamente]
na escuridão
para descobrir tão longe
o abismo acima de nós

tão fundo
que estivemos
[sempre estivemos]
voando sem perceber

Fernando Borsato

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