Dez horas e eu de camiseta
Saí de casa e vim com os amigos
Apesar da dor
Com um tapa no ombro
Me disseram para esquecer
Para sorrir
Pois hoje tem espetáculo
Juntei uma vintena de reais
E arranjamos um assento
Perto do picadeiro
O circo está na cidade
As garotas purpurinadas
Vendem souvenires descartáveis
Seus olhares convidativos
Levam meus últimos trocados
A contorcionista que sorri
A moça na lira italiana
A garota dos bambolês
Algumas são a mesma...
Mas cada uma é uma nova paixão
Suicide-se depois
O circo está na cidade
Seu ingresso paga o sorriso
Da artista e seus olhares
Parecem ser todos seus
A pandorga ritmada eletrônica
Os animais de fibra de carbono
E eu sentado num circo lotado
Ao meu lado uma cadeira vazia
Chore mais tarde
Ria com o palhaço
Cujo riso é uma memória muscular
Assim como de certa maneira
Eu no picadeiro de mim mesmo
Me contorça para parecer
Qualquer coisa ainda humana
O circo está na cidade
E a molecada quer tantos badulaques
E delira com os heróis do cinema
Eu gosto do anjo dos tecidos
Batendo asas negras junto ao teto estrelado
Não tem mágico? E daí?
A magia se foi, realmente
A magia se foi, e o circo?
Logo menos ele pega a estrada
Levando aquelas mulheres tão lindas
E aqueles intrépidos mundo afora
Sonhei mais uma vez com tanta coisa
Sonhei até que era feliz
Sonhei que podia pagar um retrato
Com a moça cheia de plumas no cabelo
Ela tinha cheiro de zimbro e lavanda
E uma voz canora com sotaque gringo.
O circo está na cidade
E eu estou na cidade
Ambos, respeitável público
Apenas para o deleite do espectador.
Claudinei Soares
Claudinei Soares

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